Contos de Léa

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Estação da Luz: O Sarau!

 

Sarau Literário:

Um grupo formado para aqueles que querem expor seus textos ao público, discutir literatura (acadêmica ou leigamente) e conhecer um pouco mais da história dessa arte que nos traz tanta emoção e vivacidade aos nossos olhos!

Os Saraus eram manifestações artísticas de teatro, dança, música e poesia que eram apresentadas para os nobres e reis. Hoje em dia os Saraus ainda estão presentes no nosso cotidiano, pois nossa vida é um eterno teatro.

 

Estação da Luz:

A Estação foi construída no fim da século XIX com o objetivo de ser a sede da recém criada Companhia São Paulo Railway. Nas primeiras décadas do século XX, foi a principal porta de entrada à cidade, mas sua maior importância era econômica: por ali passava o café em direção a Santos e chegavam os produtos importados que abasteciam a cidade (em uma fase ainda pouco industrializada).

A atual Estação foi construída entre 1895 e 1901, no lugar da original Estação da Luz de 1867. Presumivelmente escolhida em um catálogo inglês pelas autoridades locais, os materiais para sua construção foram totalmente trazidos da Inglaterra e ela foi simplesmente montada em São Paulo. Seu projeto é atribuído ao engenheiro inglês Henry Driver, sendo similar à Flinders Street Station, uma estação existente em Melbourne, Austrália.

A estação é uma espécie de templo à magnitude do poder do café na história da cidade. Erguida junto ao Jardim da Luz, por décadas a sua torre dominou a paisagem paulistana. O seu relógio era o principal referencial para acerto dos relógios da cidade.

No período de auge da estação (ou seja, nas primeiras décadas do século XX, quando a Luz era uma região de destaque na cidade), a Estação compunha um conjunto arquitetônico que não só era um referencial urbano como efetivamente fazia parte da vida cotidiana do município, constituindo aquilo que pode ser chamado de a "imagem da cidade". A Estação, vizinha ao Jardim da Luz, compunha com o edifício da Pinacoteca do Estado um marco na definição da região da Luz, marcando os limites dos bairros do Bom Retiro e Campos Elíseos.

 

 

 

 

Museu da Língua Portuguesa:

No coração de São Paulo, na Estação da Luz, o Museu proporciona uma viagem sensorial e subjetiva pela língua portuguesa, guiada por palavras, autores e estrelas do Brasil.

O Museu da Língua Portuguesa ou Estação Luz da Nossa Língua é um museu interativo sobre a língua portuguesa localizado na cidade de São Paulo no histórico edifício Estação da Luz, no Bairro da Luz, concebido pela Secretaria da Cultura paulista em conjunto com a Fundação Roberto Marinho, tendo um orçamento de cerca de 37 milhões de reais (14,5 milhões de euros).

O objetivo do museu é criar um espaço vivo sobre a língua portuguesa, considerada como base da cultura do Brasil, onde seja possível causar surpresa nos visitantes com os aspectos inusitados e, muitas vezes, desconhecidos de sua língua materna. Segundo os organizadores do museu, "deseja-se que, no museu, esse público tenha acesso a novos conhecimentos e reflexões, de maneira intensa e prazerosa". O museu tem como alvo principal a média da população brasileira, composta de pessoas provenientes das mais variadas regiões e faixas sociais do país, mas que ainda não tiveram a oportunidade de obter uma idéia mais precisa e clara sobre as origens, a história e a evolução contínua da língua.

 

 

 

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Domingo, meio dia, Estação da Luz, Museu da língua portuguesa...

 

Não estava tão frio como Ester esperava na maior cidade do país, talvez por que tudo em si inspirasse calor e as lembranças da noite anterior tivessem lhe aquecido o coração de maneira surpreendente. Estava embriagada, mal conseguia ouvir e responder o que suas duas amigas falavam ao seu lado, ouvia muito ao longe o burburinho das pessoas que conversavam no elevador, o som parecia distante, mas na verdade era ela quem se encontrava distante do mundo real naquele momento.

- Terceiro andar! Falou a mulher na porta do elevador despertando-a dos devaneios. – Vai começar um filme em 10 minutos, eu recomendo após o filme irem ao quarto andar ver a exposição e em seguida a palestra sobre a Língua Portuguesa, haverá uma breve peça de teatro. Espero que apreciem.

- Obrigada! Respondeu Lia, uma de suas amigas, fitando-a de canto. Queria saber o que se passava em seu pensamento, mas tinha uma leve desconfiança. Sorriu ao ver o olhar de Ester perdido em meio à multidão.

- Vamos? Convidou Lia puxando Ester pelo braço.

- Vamos ligar pra Milena, ela já deve ter chegado. Disse Fernanda sorrindo para Ester.

Ester sentiu o pronunciar do nome de Milena como uma melodia. Seus olhos brilharam, ficou tremula ao imaginar Milena diante seus lábios outra vez. Deixou um suspiro escapar-lhe arrancando o risinho das amigas que viam em sua face o encantamento dela por Milena.

- Você liga pra Milena né? Nós vamos assistir ao filme. Disse Fernanda num tom de voz malicioso brincando com a avoada amiga.

- Ai amor, não tira sarro, que coisa feia. Repreendeu Lia brincando com a namorada.

Ester afastou-se das amigas, pegou o celular e discou o número de Milena. Suas mãos tremeram ao levar o celular ao ouvido já imaginando ouvir a voz marcante e doce daquela mulher estonteante.

- Milena?

- Oi Ester, onde vocês estão? Indagou alegremente a jovem bióloga.

Ester sentiu seu coração acelerar, fechou os olhos por um segundo e sentiu todas as emoções da noite anterior invadirem sua alma com força. Quase pode sentir o perfume que usava, imaginou de novo aquele sorriso que oscilava do tímido ao literário.

- Estamos na estação da luz, terceiro andar. Foi só o que conseguiu dizer. Não que fosse uma mulher tímida, mas sua voz rouca estava presa na garganta e seus pensamentos não haviam despertado junto à luz do sol. Não. Ester estava mergulhada em cada detalhe mágico da noite que passara ao lado dela.

- Eu estou na Pinacoteca. Adiantou Milena.

- Vem pra cá. Vai começar um filme daqui a pouco. As meninas estão lhe esperando. Convidou.

- Estou vendo uma apresentação de capoeira. Já estou indo, está bem?!

- Vamos lhe esperar então.

- Está bem Ester. Beijinhos... Viu. Tchau! Disse Milena carinhosamente quase num sussurro.

- Beijinhos meu anjo. Respondeu Ester, não esperando que a jovem pudesse ser carinhosa e doce com ela. Afinal, até aquele momento tudo demonstrava ser apenas uma simples aventura. Não queria fantasiar nem sonhar que na manhã seguinte a jovem pudesse ser tão carolosa. Mas fora. Para sua surpresa Milena despejava as palavras ao telefone como um recital de poesias. Usando toda a doçura em seu tom de voz.

Ester caminhou lentamente até suas amigas. Sentou ao lado delas e recostou-se na poltrona com o olhar direcionado a porta do elevador. Suas mãos inquietas apertavam-se a todo instante. Encostou a cabeça esperando Milena e o filme iniciar e fechou os olhos. Precisava manter-se calma, mas não conseguia. Tentou em vão concentrar-se na conversa com as amigas, mas tudo o que vinha em sua memória era o sorriso brando de Milena. Permitiu-se então mergulhar nos pensamentos deliciosos e ternos que martelavam sua cabeça. Não se lembrava de ter visto antes um sorriso tão franco, um sorriso onde se pode ler a alma de uma mulher. E mergulhou. Ainda com os olhos fechados ajeitou-se na poltrona e reviveu cada minuto da noite surpreendente e mágica que tivera com Milena...

 

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Sábado à noite... Livraria Arsenal do Livro... O Sarau!

Ester chegava com um casal de amigas do interior de São Paulo que haviam ido lhe buscar na rodoviária. Era o lançamento do livro da talentosa escritora a quem tanto admirava. O evento prometia ser fantástico. Muitas amizades virtuais seriam apresentadas pessoalmente naquela noite. Algumas amizades do famoso “Sarau” já duravam mais de um ano e meio, somente sete membros da comunidade se conheciam, mas naquela noite seria diferente, grandioso. Todas queriam conhecer e ver de perto a uma lenda... Uma escritora de talento que também se preparava para o lançamento de seu livro no final do ano, através dela a maioria dos membros haviam se conhecido. Grande parte daquelas mulheres no evento admiravam seu trabalho e com este carinho uma comunidade literária havia se firmado ao longo do tempo. O virtual se tornaria real, teria mais calor humano, o olhar, a voz, o abraço...

Ester e suas amigas deixaram o carro no estacionamento e caminharam a pé, o curto trajeto até a livraria onde já se iniciava o evento. Entraram estranhando o silêncio. As três procuravam com os olhos, mas na livraria só haviam duas pessoas silenciosas saboreando as prateleiras de livros.

- Hei, é aqui moço? Perguntou Neza com seu jeito sempre engraçado e atrapalhado ao homem no balcão da livraria.

O Homem de cabelos grisalhos e face rosada sorriu baixinho e respondeu:

- O livro é aqui. O evento é ao lado no restaurante, subindo a escada senhora.

- Valeu tio. Obrigada. Respondeu Neza demonstrando irritação com o nada sonoro “senhora” que o homem havia pronunciado de forma tão gentil.

Ester e a namorada de Neza perceberam a cara feia da mulher e prenderam o riso saindo da livraria em seguida.

- E senhora é a senhora sua mã...

- Nezaaaaaa!!! Repreendeu a namorada.

Neza calou-se no mesmo instante e saiu. Ester e a namorada caíram na gargalhada com a simpática integrante do grupo nada cordial.

Ester subiu a escada na frente deixando o casal conversando na entrada. Entrou com o olhar procurando um rosto amigo, pois de todas as pessoas que estariam no evento somente três ela conhecia pessoalmente. Logo na entrada avistou Giovana, uma das meninas da comunidade que só conhecia por fotos e a reconheceu logo de inicio.

Giovana direcionou seu olhar para Ester, mas não a reconheceu, Ester sorriu e viu logo atrás Andréia e sua irmã mais nova, cumprimentou-as com um abraço saudoso e apresentou-se em seguida a Giovana.

Andréia estava linda, aliás, este era praticamente seu estado natural. Linda e feminina, como no primeiro encontro, como em seus sonhos doces, como sempre imaginou que fosse, mesmo antes de conhecê-la. Andréia era de uma doçura e sensibilidade incrível, tinha no olhar toda a insegurança que tentava em vão guardar atrás de um sorriso. Era um olhar que temia as coisas mais simples da vida e transmitia todas as vontades de viver algo tão intensamente quanto os ventos de inverno a beira do cais.

Ester e Andréia viviam uma cumplicidade e carinho que tentava não ultrapassar os limites impostos por ambas. Eram o oposto uma da outra, mas tinham os pontos mais extremos em comum. Tinham uma sintonia incrível, uma sempre sabia quando a outra estava bem ou não mesmo em silêncio. Falavam sobre tudo e nutriam um sentimento bonito e proibido.

Ester era intensa, selvagem, extrovertida, impulsiva, romântica e carinhosa, porém aventureira, tinha a malandragem correndo nas veias, não deixava a vida escapar-lhe pelos dedos, muitas vezes sofria por ser assim, já Andréia fazia o estilo politicamente correta, era uma mulher feminina e insegura, tinha a delicadeza estampada na face, um olhar tímido cheio de desejos escondidos, mas tinha sempre os pés no chão a todo instante, mesmo querendo tudo ao contrário, achava mais seguro não ser tão sonhadora como a jovem Ester.

Viviam em silêncio todo aquele compartilhar e sentimento que as aproximava cada dia mais, uma troca sem igual, como jamais ambas poderia imaginar viver. Mesmo sem a paixão das bocas que se desejavam, nutriam aquele gostar com carinho e dedicação, sabiam que o que tinham era rico, bonito, puro, essencial ao coração. Embora ambas desejassem ter seus momentos de cumplicidade e carinho num simples entrelaçar dos dedos, não se permitiam viver no mundo real o que sentiam.

- Você sabe se a Fernanda vem? Interrompeu Andréia, tirando Ester dos devaneios.

- Oi?

- Eu perguntei se você sabe se a Fernanda vem Ester. Repetiu.

- Eu liguei pra ela agora a pouco. Deve estar chegando.

Neza e a namorada, que tinham ficado para trás, entraram com o livro nas mãos interrompendo a conversa e fazendo a maior algazarra.

- Já que ninguém fala nada vou me apresentando e beijando todo mundo ta?! Disse Neza sempre engraçada.

No salão, a escritora que lançara seu terceiro livro naquela noite, conversava animada com o público enquanto uma atriz interpretava algumas cenas do romance, chamando a atenção de todas presentes e arrancando gargalhadas entre uma cena e outra.

Neza e Giovana logo trataram de animar as pessoas que se encontravam no restaurante ao lado do salão. Empolgadas e divertidas, faziam o grupo rir o tempo todo, em alguns momentos já nem prestavam tanta atenção no evento. Ester fazia parte do grupo que fazia as meninas rirem. Embora ninguém conseguisse superar a criatividade da dupla Neza e Giovana.

- Olha a Fernanda chegando. Disse Andréia para uma Ester bagunceira.

Fernanda entrou sorridente acompanhada da Namorada e uma amiga, completando o trio mais animado da comunidade.

Ester adiantou-se e foi logo abraçar sua velha e fiel amiga.

- Cara que saudade. Disse Fernanda abraçando-a e apresentando em seguida sua namorada e a amiga que a acompanhava.

- Tudo bem?

- Tudo. Ester, esta é a Lia, minha namorada e esta e a Milena, minha amiga velha de guerra.

Ester cumprimentou Lia, uma jovem afortunada de beleza e muito carisma, em seguida virou seu olhar distraído para a amiga de Fernanda indo cumprimentá-la. Parou por um instante e sentiu o sorriso de Milena invadir seu peito. Era um sorriso franco, dotado de uma doçura sem limites.

- Muito prazer! Disse Ester meio trôpega com a imagem daquela jovem dona de um sorriso farto e tímido.

A jovem respondeu ao cumprimento e beijou-a no rosto. Ester pode sentir seu perfume bem de perto. Um perfume suave...

Fernanda juntou-se ao grupo fazendo bagunça e foi apresentando uma a uma.

Pouco antes do término do evento o segundo grupo uniu-se em prol de um belo e merecido jantar, passava das dez horas, de uma noite linda, as meninas reclamavam de fome fazendo charme. Ester conversava com todas na medida do possível e tentava dar atenção às pessoas, sempre com o olhar fixo naquele sorriso desbravador.

Jantaram animadas a tagarelas, algumas um pouco tímidas, outras nem tanto, mas cada uma com sua pitada de charme e requinte enriquecendo a noite paulista.

Ester observava o tempo todo uma Milena distraída conversando e gesticulando, suas mãos bailavam no ar com encanto na medida que as palavras surgiam docemente dos lábios rosados.

- Ester seu telefone...

- Hã?

- Seu telefone está tocando. Insistiu Giovana.

Ester levantou e afastou-se da mesa meio distraída, falou por alguns minutos andando de um lado para o outro, as meninas na mesa observavam de longe curiosas.

- Heiiii... Põe no viva voz! Brincou Neza.

- Engraçadinha né. Respondeu Ester sentando novamente. – Vocês querem que eu fale agora ou posso terminar meu jantar.

- Fala! Responderam quase um uníssonos.

- A Cleo Ligou.

- E? Perguntou Giovana.

- E a escritora está lá nos esperando, quer que voltemos, tem algumas meninas da comunidade também querendo nos conhecer.

- O que você disse? Perguntou Andréia fitando-a.

- Disse que íamos terminar o jantar e voltar. Respondeu sem levantar os olhos do prato.

E voltaram, pouco depois de terminarem o jantar o grupo voltou a se reunir na livraria. Conheceram mais algumas integrantes da comunidade, conversaram e se abraçaram por quase duas horas. Giovana, Neza e Fernanda animaram o grupo por quase toda a noite, sempre criativas e bem humoradas, faziam todas cair na gargalhada.

Ester viu Cleo caminhando em sua direção e abraçou-a cheia de carinho.

- Pensei que não lhe veria hoje... Desabafou Cleo abraçada aquela figura a quem tanto estimava.

- Você sabe porque eu vim não sabe?! Confessou Ester.

- Eu sei menina. –Respondeu dando-lhe um beijo no rosto com todo seu carinho e admiração. Ester retribuiu o gesto. - Estou feliz em lhe ver aqui viu!

- Eu também Cleo. Você sabe disso!

- Venha, vamos cumprimentar as meninas e nos divertir muito.

Ester observava os gestos das pessoas ali presentes, todas tinham tanto a conversar, que uma noite parecia ser pouco.

Distraída, não viu quando Milena a abordou pelas costas armada com um daqueles sorrisos que ela vinha distribuindo em meio à festa.

- Me informaram que você tem um isqueiro. Falou em seu ouvido enquanto Ester conversava com um grupo de três pessoas.

Ester virou seu olhar e fitou aquele ser enigmático com  um cigarro na mão. Retirou o isqueiro do bolso e respondeu com o olhar fixo no dela.

- Eu sou o único isqueiro desta festa. Sorriu e acendeu o cigarro da jovem com elegância.

- Obrigada! Agradeceu a jovem afastando-se do local.

Milena apoiou-se em um dos carros parados em frente à livraria e passou a admirar aquela mulher que lhe respondia a provocação com o olhar firme e esverdeado sob a luz da Lua. Ester parecia ser bem popular, conversava com todas as pessoas animadamente. Sempre distribuindo tempo e atenção a cada pessoa que lhe abordava. Tinha carisma e Milena logo começou a reparar nos detalhes que a faziam destacar-se entre algumas pessoas. Milena tinha os olhos fixos na mulher e reparou que era recíproco. Cerca de uma hora depois aproximou-se novamente daqueles olhos verdes tentando puxar conversa, queria estar perto dela, conversar, descobrir seus segredos...

- Sem querer ser chata... Sorriu e baixou o olhar. – Você pode me emprestar o isqueiro de novo? Arriscou.

Ester tentou disfarçar o sorriso e entregou o isqueiro a bióloga tocando sutilmente em sua mão. Viu Milena deixar escapar um suspiro. Observou o olhar, os cílios delicados, a sobrancelha bem desenhada, o contorno da face rosada, o movimento breve dos lábios ameaçando a palavra que não fora proferida. Um sorriso num rosto lindo emoldurando a cena em expectativa.

Milena segurou firme o isqueiro afastando a mão do toque firme e macio da mulher, caminhou alguns metros até o mesmo carro em que se apoiava antes para degustar seu cigarro e ficou a admirar Ester parada olhando seus movimentos indecisos. Viu Ester retirar os óculos, ajeitar os cabelos com as mãos e caminhar em sua direção.

“Ai meu Deus, ela está vindo”. Pensou Milena quase que em voz alta.

- Posso lhe acompanhar? Perguntou Ester erguendo o cenho com um cigarro na mão.

- Hu-hum. Deixa que eu acenda. Foi só o que conseguiu responder a bióloga.

Ester encostou-se ao lado da jovem e pode sentir novamente aquele perfume suave e feminino invadir-lhe a alma. Percebeu que Milena estava mais tímida do que ela e iniciou uma conversa amistosa tentando desvendar aquele bendito sorriso que fazia questão em lhe encantar.

Ficaram ali, envolvidas na magia que as unia e as separava ao mesmo tempo. Descobrindo seus gostos musicais, literários... Nem perceberam o quanto já estavam em sintonia com a conversa agradável que foi surgindo sem querer.

Aos poucos, Ester ia descobrindo em Milena uma jovem idealista e sensível. Parecia viver em contraste com o mundo, entre o futuro e suas idéias pré-modernistas.

Ester tinha poucas amigas de sua idade, a maioria das pessoas com quem convivia e se relacionava tinha mais de quarenta anos, não conseguia manter um dialogo concreto por muito tempo com os jovens, sua própria mãe lhe dizia que tinha nascido vinte anos atrasada e por isso entrava em choque com as idéias dos jovens que conhecia não tendo paciência para ouvi-los falando de bolsas, sapatos e o último cd da moda. Descobrir em Milena um ser maduro e  inteligente a deixava fascinada de imediato. Sentia uma necessidade imensa de desvendar os segredos que ela ainda tinha a revelar... E a cada momento surpreendia-se mais com Milena.

- Que romãããããããntico!!! Interrompeu Fernanda fazendo as duas despertarem de seu torpor. – Duas mulheres bonitas e idealistas encostadas num fusca namorando. Eu deveria fotografar isso viu. Prosseguiu caindo na risada.

- Boba! Respondeu Milena meio sem jeito.

- Isso foi quase um flagrante né Mi? Riu-se Fernanda.

- Ai amor, para. Deixa as meninas. Repreendeu Lia puxando a namorada peralta pelo braço e deixando-as a sós.

- Hei meninas, guardem um pouquinho de energia para mais tarde que logo estamos indo para a danceteria ok?! Gritou Fernanda de longe sendo arrastada por Lia.

- Ok mocinha. Pode deixar. Respondeu Ester piscando para o casal. – Deixa comigo que ela está em boas mãos.

- Se, sei... Disse Fernanda erguendo o cenho e reunindo as pessoas.

Ester sorriu com seu próprio comentário e com a timidez de Milena, que a esta altura já tinha a face rubra com a brincadeira.

- Quer dizer que estou em boas mãos é?! Indagou Milena tentando disfarçar.

Ester fitou-a nos olhos e aproximando de seu ouvido sussurrou com a voz rouca:

- Tem alguma duvida?

Milena não respondeu. O silêncio que se fez no ar respondeu por ambas. Respirou profundamente e entregou o isqueiro segurando sutilmente em sua mão. Sentiu o rosto de Ester tão próximo e acolhedor que teve vontade de beijá-la ali mesmo.

- Vou me despedir do pessoal. Você quer alguma coisa? Prosseguiu Ester provocante ao pé do ouvido da jovem.

- Quero sim. Respondeu baixinho.

Ester entendeu que sua provocação tinha sido respondida e voltou a juntar-se ao grupo. Despediu-se das pessoas com o olhar fixo nos movimentos ansiosos de Milena.

De todas as pessoas que se reuniam naquela noite, tinha um carinho especial por Andréia e Cleo.

Tinha uma sintonia fantástica com a bela Cleo. Uma mulher fina e sensível, capaz de ler no olhar o que as palavras não diziam, sentia com a alma o que se passava, sabia quando Ester estava bem ou não. Via isso em seus olhos. Tinha um carinho que a conquistava cada dia mais. Ester conseguia abrir seu coração e contar seus segredos a Cleo com facilidade e segurança. Uma estava sempre apoiando à outra. Deixando uma amizade linda fluir com naturalidade e ternura em seus corações.

Nutria uma paixão secreta e impossível por Andréia. Precisava estar ao lado dela todos os dias, mesmo não vivendo os sonhos que o coração permitia aflorar, um dia longe de Andréia parecia um dia triste e sem vida, como se os sonhos não se solidificassem, mas bastava um simples “Oi” de sua adorada para tudo se iluminar... Tentava a todo custo manter os pés no chão e aceitar que, mesmo que seus destinos tivessem sido cruzados, a paixão era proibida para elas, então, alimentavam o carinho e troca que tinham numa amizade linda e cúmplice. Onde não existia lugar para segredos e brigas.

- A moça estava te alugando é? Perguntou Andréia tentando disfarçar o ciúme que sentia ao ver uma mulher se aproximar de sua Ester.

- Não meu anjo. Riu-se Ester. - Estávamos conversando.

- Ela está tentando lhe ganhar sabia?

- Talvez seja ao contrário sua boba. Mas você sabe que uma certa pessoa já ganhou meu coração, não sabe?!

Andréia sentiu seu coração disparar com a declaração não esperada naquele momento. Baixou os olhos e em seguida ergueu-os fitando aqueles olhos verdes e intensos:

- Eu sei. Também te gosto.

- Se cuida ta bom?! Pediu abraçando-a com força e deixando um beijo de ternura repousar na face de Andréia.

Ester despediu-se de cada uma com um abraço cheio de expectativa de um novo encontro. Seguiram para a danceteria em três carros, o transito estava intenso mesmo sendo quase meia noite.

Lá dentro, a letra da música traduzia o que os olhos não sabiam falar:

Faz o paraíso nos visitar / Com seu sorriso / De constelação... / Seu sorriso faz verão...”

Ester sentia a melodia embalar sua alma, observando Milena e todo seu carisma, deixou-se levar pela magia daquela noite doce e mergulhou em seus sonhos mais secretos. Encostou-se ao balcão do bar ao lado dela e pediu uma bebida. Milena reparou que Ester não tirava seus olhos dela. Sorriu novamente iluminando tudo ao redor. Mesmo ela nem precisando sorrir, pois sua beleza e suas idéias já a tinham atraído há muito.

Uniram-se ao pequeno grupo que dançava animadamente, todas falavam e riam o tempo todo das graças de Giovana e Neza, menos Milena e Ester, estas estavam envoltas ao mundo da conquista e sonhos. Não conseguiam concentrar-se muito tempo em algo que não fosse o olhar uma da outra.

Fernanda e Lia desceram para outro ambiente, de MPB, Giovana e as amigas ficaram no bar, deixando-as a sós.

- Vem. Vamos dançar. Convidou Ester, apoiando a mão em sua cintura gentilmente, indo para a terceira pista de dança, onde havia um pequeno show repleto de dançarinos pelo palco e espalhados entre a multidão.

Ficaram conversando, mesmo com a música muito alta, e dançando cada vez mais próximas. Milena sentia-se envolvida com a magia e carisma de Ester.

- Quer ir lá, onde as meninas estão? Perguntou Milena.

- Não. Mas se você quiser... Respondeu encarando-a e fazendo um gesto com as mãos.

- Também não quero pra falar a verdade! Deu de ombros a bióloga querendo ficar a sós com ela.

- Quem bom! Deixou escapar Ester sorrindo para a jovem.

- Hum! Que bom porque hein?! Indagou Milena.

- Porque eu quero ficar com você! Simples assim... Confessou ao pé do ouvido fazendo Milena suspirar.

Ambas pararam de dançar e fitaram-se por um breve instante. Ester levou a mão com delicadeza ao rosto da jovem e percorreu com a ponta dos dedos os lábios entreabertos... Circulou a face gentilmente mergulhando a mão em sua nuca, trazendo a boca de Milena até a sua. Parou, observou e mergulhou os lábios nos da bióloga num beijo ardente e úmido. Milena correspondeu de forma inesperada e intensa. Segurando uma bebida em uma das mãos e a cintura de Ester com a outra. Deixou-se juntar seu corpo ao dela no toque firme de Ester.

Já não mais dançavam neste momento, o bailar era todo dos lábios famintos devorando a boca uma da outra, somente os corações acelerados dançavam dentro do peito. Beijaram-se por quase dez minutos, não conseguiam parar, estavam em sintonia, uma parecia ler os desejos da outra. Os corpos emergiam com as músicas enquanto os lábios desbravavam os segredos escondidos do coração.

Aquele não era um beijo simples e comum... Era uma promessa. Era um beijo em prenúncio a uma noite longa e recíproca.

Com dificuldade e cuidado, conseguiram afastar os lábios avermelhados da sensação que as fazia sonhar. Ester mergulhou-se no abraço da jovem. Roçou o nariz em seu pescoço, depois a nuca, em cumplicidade. Brincou com os cabelos castanhos e cacheados a altura dos ombros, suas orelhas, os brincos de argola misturando-se aos cachos, depois fitou novamente aquele sorriso no rosto de mulher bonita e envolvente acariciando toda a sua face sem pressa. Deixou os dedos passearem por cada detalhezinho da face da bióloga. Os lábios, os olhos, as sobrancelhas bem desenhadas, contornou-as com a pontinha dos dedos delicadamente eternizando aquela cena a meia luz e voltou a beijá-la com desejo.

Milena tinha, não só um rosto belo e alegre como, um corpo bem delineado. Os seios fartos, as ancas sensuais, as mãos delicadas e um olhar que brilhava como os raios de um Luar majestoso a beira do mar.

Sua beleza era como uma doce tarde de Domingo, onde o pôr-do-sol esbanja seu espetáculo de artista principal, no palco, tendo Ester como platéia, numa cena repleta de novidades e encantamento.

Por vezes o beijo tornava-se terno, outras vezes mais intenso, pareciam ter fome, sempre oscilando entre calmaria e loucura numa fração de segundos. Os corpos unidos tentando acompanhar as músicas que afogueavam a noite paulista. Perderam a noção do tempo e espaço. Não queriam mais sair dali, embora precisassem voltar ao bar e encontrar suas amigas.

- Temos que voltar meu anjo... Disse Ester levando suas mãos aos lábios num beijo.

- Ahhhh... Resmungou Milena abraçando-a.

Ester sorriu, gostou de ouvir aquele sonoro protesto, também ela queria ficar ali, envolta em seus beijos sem pressa do mundo, mas tinham que voltar.

Segurando em sua mão voltou ao bar, mas não encontrou suas amigas.

- Elas devem estar lá embaixo. Disse Milena. – A Fernanda adora MPB.

- Então vamos. Você quer beber alguma coisa? Perguntou Ester sempre gentil.

- Hu-hum. Milena sorriu maliciosa.

- Danadinha você hein! Retribuiu.

Milena sabia ser provocante sem perder a doçura, mas por vezes, deixava-se entregar pela timidez. E Ester gostava. Deixava fluir suas provocações tornando a noite ainda mais deliciosa.

Desceram as escadas e logo encontraram suas amigas dançando um samba que parecia muito alegre pela empolgação do grupo.

- Ahãm! Apareceram as margaridas né? Brincou Fernanda. Onde vocês estavam?

- Dançando. Disse Ester com um sorriso faceiro nos lábios.

- Hum, dançando né? Sabemos bem o que vocês duas estavam dançando. Brincou Neza rindo.

- É sério. Estávamos dançando. Adiantou Milena.

- Hum! Brincou Neza achando graça. Hum! Também quero dançar! Disse rindo.

- E a Giovana? Perguntou Ester procurando-a.

- Ela foi embora, deixou um beijo pra vocês. Disse Fernanda. – Vamos mocinhas? Prosseguiu.

- Vamos. Responderam Milena e Ester em uníssonos.

- Opa! Opa! O casal ta com pressa de sair daqui pelo jeito né. Brincou Fernanda. Vambora!

Enquanto o grupo se preparava para sair da danceteria, Milena sentia em seu abraço o perfume de Ester bem de perto. Abandonada em seu peito deixou-se conduzir pela canção que tocava no momento, encostou a cabeça em seu ombro e sentiu Ester envolvendo-a pela cintura com delicadeza e carinho. Ester afagava seus cabelos cacheados e perfumados no ritmo da melodia, acariciando sua face percebeu uma pontinha tímida de tristeza espelhada naquele olhar. Era uma tristeza que se escondia atrás de doces sorrisos e gargalhadas macias como a relva. Ester levou seus dedos com maestria ao rosto da jovem e tentou acarinhá-la como quem tenta adocicar a alma com o singelo toque. Viu Milena fechar os olhos e mergulhar naquele momento de ternura. Um suspiro breve escapou-lhe dos lábios. Um suspiro que parecia querer gritar. E Ester compreendeu. Mesmo em silêncio pode sentir a dor que perturbava seu peito arranhado. Sabia que aquele não era um momento para as palavras, mas para o silêncio absoluto.

Em sua garganta, uma frase estava presa com uma vontade enorme de transformar-se em canção. Ester hesitou por algum tempo ainda, deixou Milena envolvida em seu momento de libertação. Saíram da danceteria e mesmo no estacionamento não ousaram quebrar o encanto.

- Vamos meninas? Convidou Fernanda vendo as amigas sérias de mãos dadas.

Ester abriu a porta do carro e esperou Milena entrar. Queria poder pronunciar a frase que se fazia em sua garganta desde o primeiro momento em que repousava os olhos na jovem. Entrou no carro, sentou-se ao seu lado e sentiu Milena segurar firme em sua mão. Era a resposta que precisava. Retribuiu o toque firme em sua mão e levou-a aos lábios beijando com doçura. Fitou-a bem no fundo dos olhos e fez um carinho em seu rosto. Encheu-se de coragem sussurrando em seu ouvido como uma prece:

- Fica comigo esta noite?

Milena deixou um suspiro escapar dos lábios e fechou os olhos sentindo em sua alma o mesmo carinho que inundava Ester naquela hora. Respondeu com um beijo em seus lábios e deixou-se ser abraçada.

O longo trajeto até a casa de Lia foi tomado apenas pela música que Fernanda colocava, criando um momento maior de cumplicidade entre as jovens.

No apartamento de Lia, Milena demonstrava uma feição bem melhor, como se o carinho e a atenção de Ester tivessem acariciado seu coração. Fernanda e Lia fizeram o possível para agradar as amigas, conversavam animadas enquanto preparavam a cama de suas visitas. Deixaram-nas a sós, a luz na penumbra, as cobertas macias, a música instrumental tocando baixinho na sala...

Milena permaneceu sentada no sofá enquanto Ester escovava os dentes e trocava de roupa. Seu pensamento estava a todo vapor. Uma insegurança bateu forte no peito enquanto esperava por Ester, mas não queria pensar em nada, queria apenas deixar o coração falar por si o que as palavras não seriam capaz de traduzir.

- Você está bem? Perguntou Ester sentando-se ao seu lado no sofá.

- Hu-hum. Resmungou baixinho encarando-a.

Ester fitou-a, gostava de tê-la olhando nos olhos e sentir o que se passava em sua alma. Era como se um rio límpido transbordasse na margem deixando fluir seus pedaços de verdade. Levou suas mãos ao rosto da jovem e beijou-lhe os lábios com calma.

- Vamos deitar? Convidou Ester.

- Vamos.

- Hey. Disse Ester segurando sua face com as mãos. – Não tem que acontecer nada está nem?! Só quero que fique comigo esta noite.

- Também quero Ester. Respondeu beijando-a com intensidade.

Ester correspondeu ao beijo e levou-a até o colchão na sala, deitou-se ao seu lado acariciando seus cabelos, deixando seus lábios bailarem nos dela num beijo macio, longo e cúmplice. Tinham a noite inteira de troca e carinho para compartilharem.

Deitadas, uma de frente para a outra, permaneceram trocando doces beijos, tinham a noite como companheira, o brilho discreto da Lua que insistia em atravessar a janela da sala para espiá-las, o aroma embriagante de rosas na brisa tímida da madrugada, os olhares aflitos em retribuição...

Permitiram-se voar, como as águias na copa das árvores em tarde de sol poente a beira do mar, entregando-se as sensações que invadia seus corpos, à vontade de tornarem-se apenas um ser, enquanto o amor tomava posse de suas promessas, nos beijos que acendiam as almas em sintonia de uma noite tenra de amor.

Postaram-se nuas então, a pele dourada do brilho da Lua sendo acalentada pelos lábios, saciando a sede de desvendar cada pequeno detalhe que as fizesse suspirar, as mãos bailando pelo corpo macio, como uma gaivota em torno das embarcações de verão, o perfume de rosas que exalava anunciando uma nova estação, os desejos contidos aflorando no íntimo de suas vozes em silêncio, os olhos levemente cerrados mergulhando nos sonhos, os lábios entreabertos desejando serem calados dos sussurros por um beijo ardente e acolhedor, os sons afagados na boca em glória ao entrelaçar dos sentidos, o estremecer do âmago sendo amparado pelo abraço no momento do prazer, a sensação de vida invadindo os corações com surpresa e carinho...

Amaram-se, como se fosse a primeira e última vez, como se cada pequenino instante fosse uma novidade, selaram com um beijo calmo aquele sentir recheado de ternura no toque em retribuição.

Ester sentiu vida em seus olhos novamente, como há muito tempo não sentia... Milena deixou-se levar pela magia que a fez querer o abraço de conforto após o amor. Cerraram seus olhos num sono merecido. Sentindo o perfume uma da outra. Adormeceram como anjos no paraíso.

 

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- Ester! Ester!

Ouviu chamar seu nome muito ao longe nos campos de trigo, o sol dourando as flores silvestres, a brisa batendo suave em sua face levemente rosada, os pássaros cantando alegres no pouso aconchegante no ninho, o burburinho das águas cristalinas e doces na cachoeira...

- Esteeeer!

Insistiu a voz em tirar-lhe de seus pensamentos voltando à realidade.

Com dificuldade, abriu os olhos e respirou fundo como se pudesse absorver o perfume daquela mulher envolvente outra vez.

- Terra chamando Esterzinha! Câmbio! Insistiu Fernanda rindo da amiga avoada ao seu lado na poltrona. – Ester, a Milena chegou. Prosseguiu.

Ester saiu de seu torpor ao ouvir o pronunciar daquele nome meigo.

- Acho que ela está nos procurando, vá lá chamá-la. Disse Lia. – O filme já vai começar. Avisou.

Ester levantou, procurou com os olhos perdidos em meio à multidão o sorriso encantador que a embriagava na noite anterior. Avistou aquela imagem como uma pintura de Renoir ao lado do elevador buscando um rosto amigo. Aproximou-se da jovem ainda meio zonza e tocou em sua mão com gentileza fazendo-a virar para si.

Milena armou-se num sorriso lindo e novo. Parecia feliz ao encontrar Ester novamente.

- Oi... Disse abraçando-a com ternura.

- Oi Milena, você está bem? Perguntou fitando aqueles lábios avermelhados. Milena estava linda, radiante.

- Hum! Estou. Cadê as meninas?

- Estão ali nos esperando, o filme já está começando. Venha. Convidou entrelaçando os dedos nos da bióloga.

Milena sorriu contente. Não esperava que Ester pudesse ser carinhosa com ela na manhã seguinte. Gostou da sensação de proteção que Ester lhe passava. Seguiu-a e cumprimentou as amigas que tinham na face um risinho sapeca.

- Bom dia! Disse Milena.

- Ôhhh! Muito bom dia por sinal! Riu-se Fernanda.

Lia a cumprimentou com um beijo no rosto e voltou a sentar ao lado da namorada.

Ester e Milena sentaram-se ao lado das amigas, permaneceram acariciando a mão uma da outra, por vezes os olhares cruzavam-se tímidos querendo despejar as palavras e inseguranças que as habitavam.

- Hoje de manhã, quando você saiu... Arriscou Ester sendo interrompida pela jovem.

- Eu sei. Também pensei o mesmo. Confessou repousando um breve beijo em seus lábios e dando aquela conversa desnecessária por encerrada.

Ambas não esperavam que o carinho pudesse passar daquela noite de amor, estavam surpresas com as sensações que as invadia. Não queriam pensar muito naquele momento, queriam apenas curtir e aproveitar a presença uma da outra. E assim o fizeram, por quase todo o Domingo.

Assistiram ao filme, viram a exposição no Museu da Língua Portuguesa, almoçaram animadas, conversaram como duas velhas amigas e curtiram cada minutinho daquele Domingo de sol mágico.

 

Estação da Luz... Templo à magnitude do poder do café na história da cidade de São Paulo... Palco principal de entrada à cidade... E agora, com toda a sua magia e beleza... Palco do firmamento entre dois corações que permitiram encontrar-se sem defesas ou medos. Palco dos olhares trêmulos e das mãos suadas de duas mulheres cheias de sonhos e desejos a serem revelados ao longo da caminhada. Poderia ter sido o fim, mas não, era apenas um novo começo, uma nova esperança sendo travada no peito com fé e alegria, onde os olhos nem sempre precisam das palavras sendo proferidas pelos lábios trêmulos, na voz embargada, pois a emoção era capaz de compreender mesmo no silêncio, o que se passava em seus corações meninos.

Uma nova estrada, um novo poema, uma nova história de amor!

 

Poema por Ela...

Ela é a delicada poesia
Ela é o bradar da sorte
Ela é a tenra melodia
Ela é a estrela do norte.

Ela é a flor que exala
Tristes ais do coração
Ela é o colo que embala
A saudade e emoção.

Ela é água das fontes
É o bailar nas colinas
É o arbusto dos montes
Ela é a beleza menina.

Ela é o aroma, é o mar...
É a esperança da dor
Ela é solo, é o altar...
Ela é a glória do amor!

 

£ëå KïlL, Juquehy, 14/09/2006

 

*** FIM ***

 

 

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